História

O Texto é transcrição fiel do livro:

«O CONCELHO DE BARCELOS AQUÉM E ALÉM-CÁVADO»

de Teotónio da Fonseca
Barcelos 1987

Notar que o autor
publicou o livro em 1948:
alguns pormenores
já não correspondem
à realidade actual

PEREIRA ou Pereiró, como em outros tempos também foi conhecida, orago S. Salvador, era curato da apresentação do Real Padroado. No tempo de D. João III passou este direito de apresentação para o Colégio de S. Paulo da Companhia de Jesus da cidade de Braga e nele se conservou até à extinção daquela Companhia em Portugal, voltando para o Real Padroado em 1759. Pereira parece que vem da palavra latina piraria, pereira. Esta freguesia vem nas Inquirições de D. Afonso II de 1220 com a designação — «De Sancto Salvatore de Pereira», nas Terras da Faria e nelas se diz que o rei não tem aqui reguengo algum porque é vila honrada do Senhor Pedro Pais «alferaz».


A sua Igreja matriz estava primitivamente na Terra' Branca, lugar da Cabacinha, ao lado da estrada municipal, onde hoje está um pequeno cruzeiro a indicar o sítio que ela ocupava.
Do século XVII para o século XVIII, não posso bem precisar a data, pois o arquivo paroquial é pobríssimo, foi mudado para o sítio onde actualmente está.
No princípio o edifício era de reduzidas proporções, mas foi aumentado posteriormente.
Assim por baixo do púlpito, encoberto com guarnição de madeira, está uma data do século XVIII.
A torre, (primitivamente existia um torreão) construída em cima de dois arcos, foi feita nos meados do século XIX, assim como a frontaria da Igreja.
A Capela-mor foi levantada nos fins daquele século e o corpo da Igreja concertado e forrado de novo com estuque em 1901, conforme se vê da data nele escrito.
Na sacristia o que tem de mais notável é um lavabo em pedra e os gavetões em castanho.
Ao lado esquerdo da Igreja estão as Casas da Renda em completa ruína seguidas da Residência Paroquial, que para isso pouco lhe falta.
Em frente do templo está o Cruzeiro Paroquial, simples e sem data.

 

O Cemitério Paroquial tem sobre o seu portão a data 1888.

Esta freguesia está situada, parte em planície e parte na encosta norte do monte de Vilar de Figos e na encosta oriental do monte da Franqueira até ao alto, em uma grande extensão.

Confronta pelo norte com as freguesias de Gilmonde, Carvalhal e Alvelos, pelo nascente com a de Remelhe, pelo sul com a de Goios e Pedra Furada e pelo poente com a de Vilar de Figos e a de Milhazes.


  

Na parte mais elevada deste último monte e nos limites da freguesia de Milhazes está o Santuário de Nossa Senhora da Franqueira.

Ignora-se a data da sua fundação, que alguns escritores atribuem a Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques.

Primitivamente devia ser uma ermidazinha de exíguas dimensões, reduzida talvez à actual capela mor.

Esta é toda em abóbada gótica; qualquer inscrição ou decoração heráldica que porventura tivesse nos seus fechos hoje são indecifráveis por terem passado a pedra que forma aquela abóbada com um banho de... cimento.

O altar mor é de jaspe com três colunas da mesma pedra, antiga mesa que o Duque D. Afonso, 8.° Conde de Barcelos, trouxe de Ceuta, quando da conquista daquela praça de guerra, no tempo do rei D. João I em 1415, e a ofereceu a esta Nossa Senhora.

Actualmente está encoberta com um frontal de madeira.

A tribuna deste altar, onde se venera a imagem nova, é de talha simples e tem ao centro pintada a inscrição — Ano 1876—, talvez a data da sua pintura.

Ë iluminada por uma rasgada janela, evidentemente ali metida em época posterior à sua construção.

Exteriormente ainda se vê em volta a cornija com modilhões.

O corpo da capela, sem dúvida de construção muito mais recente, despida de qualquer arrebique de arte, com suas paredes rebocadas e tecto em estuque caiado, bem iluminado por rasgadas janelas, é de aspecto desolante.

Contém dois altares laterais, estando no do lado do evangelho uma imagem da Senhora da Franqueira de escultura antiga.

Na Igreja Matriz de Santa Maria Maior de Barcelos existe uma formosíssima imagem gótica trecentista da Virgem, em madeira, rara preciossidade, sobre a qual, há poucos anos fez nesta cidade uma erudita conferência o rev. Joaquim da Costa Lima, e que se supõe fosse levada desta capela para aquela Igreja, talvez no século xvIII.

Devia ser na ocasião daquela mudança que foi colocada no camarim do altar-mor a imagem nova que aí se vê.

Na parede do lado do evangelho, junto à porta travessa, vêem-se três placas com inscrições.

Na primeira: «Recordação da 1ª Peregrinação à Virgem da Franqueira, promovida pelo Circulo Católico de Barcelos 27-9-1908»;

na segunda: «4ª Peregrinação à Franqueira, promovida pelo Grupo dos Estudos Sociais Alcaides de Faria — 29-9-918»;

e na terceira: «Recordação da 5.a Peregrinação em que tomou parte pela primeira vez a imagem de Nossa Senhora da Franqueira, promovida por um grupo de Artistas de Barcelos, 5 de Setembro de 1926. Comissão Arcipreste P.c Rio Novais, Prior de Barcelos, P.e Joaquim Gaiolas, Francisco de Sá, José R, Pereira, João D. Pereira, João Baptista Miranda, Celestino do Nascimento, Joaquim G. dos Santos, Francisco J. Alves, João G. Fernandes Braga».

O frontispício da capela fez-se ao moderno nestes anos, diz Fr. Francisco de Santiago na Crónica da Província da Soledade, pág. 284, com sua torre e sino, dado por um brasileiro,

Na torre está gravada em uma pedra a seguinte inscrição:—«ESTA. OBRA. MANDOV. FAZER. PEDRO. GOMES. SIMÕES. NATURAL. DE, VILAR. DE. FIGOS. 1753».

Actualmente existem nesta quatro sinos muito bem afinados.

A porta da sacristia tem exteriormente na sua padieira a data — 1691.

Dentro estão na parede dois retratos encaixilhados: um de João Gomes Pena, da freguesia de Milhazes, que mandou erigir o monumento à Virgem, a que nos referimos quando tratamos daquela freguesia, e outro de José António da Silva, do lugar de Rebordões, freguesia de Gilmonde, bemfeitor deste santuário.

Em 1558 erigiu-se nesta capela uma confraria com o título de Nossa Senhora das Neves, que chegou a ser tão grande que tinha irmãos em todo o arcebispado e ainda fora, e, posto que durasse muitos anos, em 1742 já não existia.

Por trás da capela mor, fora do adro, pouco distante deste mas já no declive do monte, está um singelo cruzeiro, como que envergonhado da sua modéstia, cujo plinto mostra a data—1681.

Ao norte deste ergue-se a Casa da Confraria, que, segundo me informam, não tem mais de cinquenta anos, ao lado da qual se conservam ainda umas humildes construções, muito mais antigas, cercadas por altos muros, as quais devem ser restos de ermitérios.

Do alto do monte, junto à capela, goza-se um dos mais belos panoramas desta parte do concelho: ao poente, desenrola-se à nossa vista toda a costa do mar desde Esposende até muito além de Vila do Conde; ao norte vê-se em grande extensão o poético vale do Cávado na sua verdura e luz deslumbrante, e ao nascente vastíssimas ondulações de terreno, a perder de vista, até às serras do Gerez e da Lameira em Basto.

Na descida, ao abandonar este encantador lugar, iremos recitando aqueles versos de Tomás Ribeiro :

Como este sítio é bom e esta paisagem bela!

 Como é bonita a ermida,

 Tão nova e tão singela,

 Em honra dela erguida!

A Casa de Maria, a nossa mãe divina!


 

 

No pendor do monte, a nossa montanha sagrada pelo espírito religioso e guerreiro que a bafeja, levanta-se o triste e ermo convento do Bom Jesus da Franqueira.

Em 1429 dois cônjuges, naturais da cidade do Porto, distribuindo todos os seus bens, «ficando verdadeiros pobres de espírito», di-lo um frade, Fr. Francisco de Santiago, vieram a este monte e aqui fizeram vida eremítica; chamavam-se eles Vicente « O Pobre» e sua mulher Catarina Afonso.

Fundaram umas pobres casas e uma ermida, com o título de Bom Jesus, no sítio onde hoje está a cerca do Convento, perto de uma fonte.

A esta nascente veio juntar-se mais tarde outra água e no tempo do Guardião Fr. Domingos de Montalegre foi aí construído um belo chafariz, com pátio, escadas e um nicho onde esteve a imagem de Santo António.

Não se sabe bem o tempo que ali viveram estes ermitões, sendo porém certo que ainda eram vivos em 1476.

Depois da sua morte sucederam-lhe naquela pobre habitação os Padres Claustrais ou Castelhanos, aumentando estes o primitivo edifício e conservando-se nele até 1505, ano em que o mesmo foi dado, com seu consentimento, pelo Duque D. Jaime aos frades franciscanos da Província da Piedade, passando para os da Soledade, depois da divisão daquela Ordem.

D. Henrique de Sousa, último Comendatário do mosteiro beneditino de Rendufe, aquele que tão triste fim teve mais tarde na Casa do Crasto, deu princípio ao actual edifício deste convento, distante «um largo tiro de mosquete» para noroeste do antigo cenóbio, aproveitando nessa obra as pedras do velho e histórico Castelo de Faria, que lhe ficava próximo.

Para aqui mudaram os franciscanos em 1567.

Este novo edifício, não obstante ser sólido, tornou-se pequeno para as necessidades crescentes dos seus moradores sendo posterior e sucessivamente aumentado.

Assim em 1678 fizeram-se obras de reparação e depois várias outras entre as quais um dormitório pequeno no ano de 1708, na regência do Provincial R. P. Mestre Fr. João de Santa Eulália de Rio Covo.

Este convento formava um quadrilátero, no centro do qual estava o claustro, guarnecido de arcaria, contendo no meio um chafariz do qual hoje apenas existe o tanque.

A parte do edifício do lado sul e poente foi demolida, ficando apenas a parede exterior até ao primeiro andar ainda com portas e janelas na parte térrea.

No ângulo sudoeste era a cozinha, onde ainda se vê um curioso fontenário em que a água cai pela boca de três carrancas, e no ângulo nordeste o refeitório, com tectos de castanho em renascença pobre, como competia a frades desta Ordem.

A eira, na parte oeste demolida, foi construída com pedras que eram tampas de sepulturas, tendo algumas delas restos de inscrições.

A portaria, no átrio da Igreja do convento, é encimada por um nicho desabitado, ao lado do qual se vê uma inscrição em letras góticas que diz: — «Aqui jaz Vicente o Pobre e Catarina Afonso que partirão da cidade do Porto, era 1420, e fundarão este lugar».

Este letreiro era a inscrição tumular dos fundadores do ermitério na Capela do Bom Jesus e foi mandado colocar no lugar onde o vemos quando os frades se mudaram para este convento e trasladaram daquela ermida para a sua Igreja os ossos dos dois corpos.

Esta Igreja, ainda que não muito grande, é suficientemente espaçosa, de estilo pobre, deixem-nos dizer, franciscano.

No corpo dela, no seu pavimento, existem três sepulturas rasas com inscrições.

Em uma diz: — «Jaz aqui Rodrigo, homem descuidado e pecador, indigno irmão da Terceira Ordem de S. Francisco: pede huma Ave Maria. Obiit 1 de dezembro de 1710».

Este humilde irmão de S. Francisco foi senhor da nobre casa da Fervença.

Em outra diz: «Anno 1793— V — De Manuel José Pinh.ro e sol... ado desta 1ª e se d° esta s.ª».

Finalmente na terceira, a que fica do lado da epístola, lê-se: — «Sª de Sebastião de Macedo Fer.ª e sua mulher da Casa da Portela e seus descendentes. Anno de 1816».

Era esta sepultura privativa dos Senhores da Casa da Portela, na freguesia das Carvalhas.

Em 1740 o Provincial Fr. António de Guimarães e o Guardião Fr. António de S. Jerónimo resolveram mandar construir uma fonte junto à portaria do convento para dessedentar os povos que por ali passassem.

Em vez de porem nessa fonte a figura de qualquer divindade pagã, como era de uso naqueles tempos, resolveram colocar a imagem de Cristo crucificado e sabendo isto «o Balzabú», Manuel Gomes dos Reis, ferreiro da rua da Esperança de Barcelinhos, espontaneamente ofereceu essa imagem aos ditos frades.

É de pedra, talhada no monte de Remelhe, cuja condução deu lugar a muitos milagres, segundo contam as crónicas monásticas.      .

Por cima da fonte foi colocada a imagem e por baixo desta a letra do Psalmo: — «Apud te est fons vitae», ficando desde então conhecida por Senhor da Fonte da Vida ou Senhor da Vida, com grande devoção dos povos durante séculos.

Passado porém pouco tempo mudaram essa imagem e fonte para outro sítio, mais no largo que enfrenta a portaria, e aí fizeram um oratório.

Assim esteve até que Fr. Manuel de Azurara, por alcunha «O Pilatos», mandou fazer uma capela, com sacristia, correndo a fonte à entrada em duas bicas, uma de cada lado da porta.

Esta capela foi mais tarde demolida e a imagem veio ocupar o altar lateral, do lado da epístola, na Igreja.

A fachada desta apoia-se em quatro arcos, três de frente e um lateral, e ao seu lado direito ergue-se um modesto torreão, hoje apenas com uma sineta.

Em frente estende-se um espaçoso terreiro no centro do qual está um cruzeiro sem inscrição nem data.

Desse terreiro, ao lado, desce um bem lançado escadório, parapeiteado de pedra, até ao primeiro patamar onde termina a calçada, ao lado da qual ainda se vêem as capelas com Passos, os da Paixão de Cristo já na freguesia do Carvalhal.

Ensombram estes sítios velhas carvalheiras entre outras árvores de menos idade.

No fim do escadório e ainda dentro dos limites de Pereira estão duas daquelas capelas: a da Sagrada Verónica e a do Encontro.

Na frontaria desta última vê-se a seguinte inscrição: — «João Francisco dos Santos Brazileiro mandou fazer as paredes desta capela e pede se lembre das almas p. a. de Deus. Ano de 1735».


 

 

No distrito desta freguesia, junto à Estrada Municipal n.° 5, no lugar do Cidral, existe a Capela da Senhora da Guia, de construção antiga e interessante, com seu cabido ou galilé apoiada em oito colunas.

É particular; era de Manuel José do Vale Vessadas e hoje é de seu genro o sr. Domingos José Senra.

Há nesta freguesia os seguintes Nichos ou Alminhas: o da Varziela, ao lado da Estrada, com um pequeno alpendre, e o da Aldeia.

Esta freguesia é atravessada pela Estrada Municipal n.° 5 de Barcelos às Fontaínhas, com um ramal, hoje intransitável, até ao alto da Franqueira e é banhada pelo ribeiro dos Amiais.

As suas fontes públicas são: as do Arrabalde, Ar-mindra, Entre Devezas, Aldeia, Pinheiro, Cancela da Agra e Cidral.

Esta é em forma de chafariz, caindo a água por uma bica em uma taça de pedra.

A sua população no século XVI era de 33 moradores; no século XVII era de 56 vizinhos; no século XVIII era de 82 fogos; no século XIX era de 314 habitantes e pelo último censo da população é de 435 habitantes, sendo 210 varões e 225 fêmeas, sabendo ler 100 homens e 26 mulheres.

Não tem Escola Oficial.

Esta população está distribuída pelos seguintes lugares habitados:

Varziela, Campelo, Aldeia, Igreja, Arrabalde, Souto, Bouça, Cal, Silgueiros, Pedrego, Sanguinhal e Franqueira.

As suas casas mais importantes são: a da Igreja, a de Campelo, a de Figueiredo, a do Sapateiro, a de Vai de Vessadas e a do Florêncio.

Tem caixa do correio.

A sua indústria está reduzida a alguns tamanqueiros, a poucas moendas e pouco mais, e o seu comércio a duas lojas de mercearia.

Dos homens mais ilustres, além dos que florescem nas artes, ciências e santidade no convento da Franqueira, dos quais tratam circunstanciadamente as crónicas monásticas, destacaremos os seguintes:

Diogo Pinheiro, filho do Dr. Pedro Esteves e de sua mulher D. Maria Pinheiro, da casa solar dos Pinheiros de Barcelos, foi prior de São Salvador de Pereira, Comendatário do mosteiro de São Simão da, Junqueira, D. Prior da Colegiada de Guimarães, Prelado de Tomar e Bispo do Funchal em 1514, sendo certo que, pelas suas muitas ocupações, nunca foi à sua diocese. Defendeu calorosamente o Duque de Bragança, cuja casa sempre serviu, D. Fernando II, quando do seu julgamento em Évora.

Parece que promoveu obras na Franqueira, deixando esculpido no tecto daquela capela o seu brasão.

Padre Mateus Gonçalves, vigário de Pereira, onde viveu muitos anos com grandes virtudes e santidade. Faleceu na sua casa da rua das Velhas em Barcelos, exalando o seu corpo depois de morto um cheiro suavíssimo, como dizem velhos e autorizados escritores.

Padre Manuel da Costa Carvalho, vigário de Pereira, ofereceu em 1740 «um quarto de ouro » para a construção da Capela do Senhor da Fonte da Vida, no convento da Franqueira.

Fr. Jerónimo do Barco da Soledade, frade no convento da Franqueira, foi Deputado às Constituintes em 1820 e Bispo de Cabo Verde.

Consegui desta maneira arranjar uma missa cantada até com mestre-de-cerimónias; falta-me só o pregador.

Agora me lembro que, quando os Jesuítas eram padroeiros desta freguesia, quem pregava o sermão nas festas da Senhora da Franqueira era um padre da Companhia, mas como esta foi extinta para sempre, já não há jesuítas em Portugal, e este artigo vai extenso, vou dar as despedidas, como diz a cantiga, a esta modesta freguesia, de tão nobres tradições, e passar à seguinte.

 

Para mais informações sobre o aspecto civil da Freguesia de Pereira, veja o site da Junta de Freguesia em:           http://www.pereira.maisbarcelos.pt/